Terça-feira, Maio 19, 2009

não

"ouvir nãos
não me afeta o bastante
nem tampouco o suficiente
p'ra me deixar parado sequer um instante..."








rigoberto lima (trecho de poema antiiiigo)

Terça-feira, Maio 05, 2009

micro-ensaios sobre coisas belas e incrivelmente baixas

Micro-ensaio sobre minhas um milhão de paixões
(um milhão setecentos e cinqüenta mil até o fechamento da redação)

Ah, como eu as faria felizes! Disso eu sei... As faria felizes e inteiras como elas devem ser. Eu daria certo com um milhão de mulheres... Dessas que já me apaixonei. E foram várias... Um milhão as que me lembro. Eu completaria cada uma, sei disso, tenho certeza, tenho que ter. Começa sempre assim: a conheço e imagino desvairadamente como seria acordar do lado dela, dividir uma casa com ela, ir ao supermercado com ela, dividir os suores noturnos, dividir os sexos molhados, dividir as brigas e todos esses afazeres que fazem os casais serem casais. Os dias, as tardes e as noites. Nada de Romeu e Julieta que nunca foram um casal e nem podem servir de parâmetro para relacionamento nenhum, são um belo quadro em uma moldura, mas nunca dividiram uma casa, pagaram contas ou tiveram filhos e p’ra falar a verdade nem lembro se fizeram sexo ( Shakespeare que me perdoe).
E eu as imagino gostando de mim. Mas dificilmente gostam, admito que faço pouco para isso. É estranho. Faço da minha vida algo distante até de mim mesmo. E por vezes percebo que tento não ser atrativo, me vejo querendo não ser visto, passar despercebido. E consigo. Conheço os poetas, conheço os dizeres, as frases certas, o que essas um milhão querem absurdamente ouvir e fazer, serem amadas com seus todos, suas dúvidas, seus inúmeros defeitos, seus corpos, seus cabelos, seus sapatos, suas bolsas, seus batons, seus pescoços. Mas o receio ácido do não me faz não fazer. Existe algo entre as vontades e os fazeres que me impede.
Ah, como eu as faria felizes! Um milhão e meio as que me lembro. Termina sempre assim: as vejo, não faço, apaixono, não faço e ainda continuo apaixonado, sufoco cada gota de vontade de atenção, de sexo, de suposição de sexo até se tornar bagaço de laranja. No final, o que sobrar sou eu. Mas tendo a certeza que eu daria certo com cada uma e cada uma iria me amar como nunca amou a outro qualquer que fosse (meu mundo perfeito platônico às vezes me faz rir... como agora). Ah, além de um desvairado último apaixonado por todas as minhas duas milhões de paixões ocultas, na minha ultima contagem, sou um mentiroso compulsivo.






Micro-ensaio descritivo sobre sexo a três
(se você tem pudores exagerados ou é um purista literário que acha soft-porns literários um atentado a sua língua e gosto é melhor parar aqui e ir atrás de um parnasiano, pois aqui o que é comum vocês acharão que é devasso...e talvez seja mesmo)

Traçarei um quadro frio sobre o sexo a três. Manterei a distância certa de um narrador e criador de mundos, micro-mundos na verdade. E ainda me acho um mentiroso compulsivo. Esse resume-se a três pessoas, um quarto e muita saliva. Admito sem vergonha alguma: não existem intenções nobres e puramente singelas nesse breve texto que você lerá até o fim que sei. Se chegou até aqui vai chegar até o final. Não há nobreza. Existe apenas a vontade de descrever sexo, sobre cenas absurdamente brutas e lindas. Existirão alguns de vocês que acharão isso impróprio e machista. Mas já disse, não existe nobreza, boas intenções, engajamento político ou quaisquer forças motrizes de grande valia que façam esse texto estar sendo escrito. Não existe substância...apenas vontades. Você lerá sobre coisas comuns, belas e vulgares. E somente.
Não há como dizer onde o ato sexual em si começa. Ele termina onde todos sabem, ou presume-se que sabemos, mas o começo é difícil de definir. No beijo? Nos beijos? No enrijecer de sexo? No molho do sexo? No toque? Nos mamilos duros? No primeiro chupar (pensei em escrever sugar... ridículo!) de genitália? Na primeira estocada masculina em vulvas vulneráveis e absurdamente molhadas? Sinceramente, não sei qual sua opinião, mas a minha é que começa na vontade dos olhos. E é por eles que começo.
- Vamo fazer uma coisa que todo homem gosta de ver? – pergunta a primeira.
- O que seria? – pergunta a segunda.
A primeira segura a nuca da segunda com propriedade de quem quer sempre alguma coisa e se beijam. Um beijo forte, onde de quando em vez aparece uma língua faminta pelos cantos dos lábios quentes e nervosos. Elas estão de joelhos na cama e entre elas está ele (eu disse que seria a três). Deitado, as vontades já se mostram aparentes pelo volume das calças. Todos estão vestidos ainda. Elas se soltam, e olham para o espécime masculino pedindo atenção sob elas. Elas tiram a sua camisa com a delicadeza das boas amantes: rápida e abruptamente. Duas línguas se passam por sobre ele, descendo da barriga, chegando até pouco abaixo do abdômen e sobem novamente. A partir daí ele vai ser espectador por alguns minutos. A primeira levanta o rosto e deita a segunda sobre a cama, apaga a luz, uma fresta de luz passa do banheiro para o quarto, os olhos já vão se acostumar com a escuridão. A segunda ainda reluta pra tirar a blusa. Dois puxões resolvem e logo ela já mostra os seios com mamilos claros na claridade parca do quarto. Mas a segunda quer mais. Tira a calça da segunda que já não demonstra resistência alguma. O sexo se abre para o quarto. O sexo oral feminino. E ao ver do espectador muito bem feito. Começa-se devagar, a língua e a boca delicadamente sobre o clitóris em sugadas leves e contínuas. Uma aula! Dois dedos entram sorrateiros na velocidade das chupadas na boceta. A saliva e os líquidos se misturam entre boca, língua, vulvas e vontades. O homem observa e apenas acha lindo...não queria estar em outro lugar. Mas não se contenta enquanto ouve os gemidos da segunda sendo sugada e os barulhos próprios das chupadas cada vez mais fortes da segunda é chamado a batalha. Senta suavemente na barriga da segunda de modo com que seu pau fique entre os peitos ainda intactos nessa noite. Aperta as duas contra os seios e projeta uma penetração por entre eles. A segunda simplesmente é devorada.
- quero bater uma – interrompe com um gemido leve - punheta pra você perto da – outro gemido - minha boca!
Ele obedece sem muito reclamar. Inclina um pouco o corpo o pau fica perto da boca dela e começam as nervosidades da masturbação. De quando em vez ela passa a língua sobre a cabeça do pau. A primeira ainda a sorve. Uma cena bruta e linda. Não existe substância, apenas o entendimento.
Mas ele quer sentir o gosto quente do sexo alheio. Sai de sua posição e vai até o entre pernas da primeira. E não se pode precisar como duas bocas e boceta se dividem em beijos. E o cheiro de sexo inunda o quarto. O cheiro do bom sexo. Das boas trepadas.
- quem é que ta chupando? – pergunta a primeira como se lhe faltasse o ar e não conseguindo abrir os olhos pra poder agarrar o pouco oxigênio ainda não respirado no quarto. Os dois que brigam em comum acordo pouco ou nada ligam para a pergunta.
- quem é que tá chupando, porra? – a irritação do sexo de querer mais.
- eu! – a resposta incisiva do sexo de quem quer dar mais.
- quero te deixar sem fôlego! – diz a segunda para o homem.
- como assim? – pergunta ele sabendo que vai amar a resposta.
A primeira sabe que é a vez dele e se coloca na posição de vouyer. A segunda abre mais as pernas. Ela coloca seu rosto frente aquele sexo devidamente entregue, devidamente molhado e cheio de vontades mundanas.
- vou segurar teus cabelos... Empurrar tua cabeça... Fechar as pernas... Me chupa até ficar sem ar.
Ele obedece. Fazer mais o que? Ela cumpriu bem o que disse. O apertou com toda força para seu sexo. Não se sabe precisar de se ela teve seus espasmos orgásticos... Só seu corpo contorcido foi visto nessa hora... E gemidos femininos... Sons dos mais lindos.
Ele se desvencilhou com dificuldade, pois ela apertava com muita força, suas pernas eram fortes. Ele conseguiu se sair dos meios dela. Seu rosto era vermelho... E a respiração ofegava e pedia ar.
A primeira se deita sobre a segunda. Nuas. Mãos se misturam. Seios são apertados. Ele ainda recupera o ar. Ele está na ponta da cama e elas estão de costas para ele.
- escolhe o que você quer comer. – ri sacanamente a primeira.
Ele a escolhe. A penetração é fácil... Tudo é molhado... Tudo é quente... As mãos querem ser cheias dos corpos dos outros... Ele a fode com gosto... Primeiro devagar... Acelera... Ele não quer gozar tão cedo... E vai devagar logo depois... Sentindo cada estocada... Cada enfiada... E a movimentação da penetração... a sensibilidade entre o pau e o quente da boceta... O vai e vem ritmado e sincopado... As costas dela ao largo dos olhos dele... E ela de costas sentindo lá atrás dela aquilo entrar e quase sair... A sensação de invasão consentida... Os calores do sexo lhe tomando as pernas... As duas mãos dele segurando suas carnes da cintura com firmeza... Ela querendo olhar, mas de costas apenas sentindo e consentido a invasão por trás...
Ele quer ser chupado. E pede. Não existe razão para negar. As duas o fazem. A primeira o sabe fazer com mais vontade e logo se apossa do pau. Devagar e macio. Língua e sexo se dão muito bem.
Ele penetra a segunda. Ela gosta. Olha nos olhos dele e só se ouvem coisas do tipo... Não pára... Fode mais... Mais rápido... Mais devagar... Fode, porra!...Assim... Assim!
A segunda a faz calar a boca. Arca as pernas sobre o rosto da segunda.
- chupa e cala a boca! – cenas brutas e lindas.
Não veja vulgaridade, por favor! Não pense isso. Veja vontades apenas.
Não sei dizer se os três gozaram. Mas não creio que isso importe pra você agora. E pra dizer a verdade também não se sabe em qual momento isso terminou de verdade.
Pedi para você não querer ver substâncias, nobrezas ou intenções maiores aqui. Pedi para que visse vontades. Peço para que veja coisas comuns e incrivelmente belas.






“o pervertido é a pessoa normal pega em flagrante”
(Nelson Rodrigues)







rigoberto lima

Terça-feira, Abril 28, 2009

hoje

acredito na brutalidade inevitável
das delicadezas...
nesse mundo onde todos correm
aprecio por demais caminhar...
sou um péssimo capitalista
nunca entendi direito essa coisa do acumular...
por saber poucas verdades
acredito em mentiras bem contadas...






rigoberto lima

Quarta-feira, Abril 15, 2009

a tim e minha crise

Tive uma crise criativa no ano passado e começo desse. Acho que compus duas músicas nesse hiato de tempo cretinamente grande. Não sabia o que escrever pra ninguem. Comparava tudo o que eu fazia com os outros. E sempre achava ruim e sofrível. Uma maldita síndrome de pau pequeno com fetiches sonoros. Mandei às favas tudo isso...esqueci o resto do mundo, não existem mais compositores, músicos e nada com que me comparar. Nasceu "isso não é o fim". Minha melhor música em anos (poucos aliás de estrada e hospício). Como a tim já me disse...alguma coisa está acontecendo (ou algo assim).





rigoberto lima

Sexta-feira, Abril 03, 2009

soul

por tempos
empurro um pouco mais a faca
só pra saber até onde aguento
nunca me viram por aí?
feito fantasma perdido...
espectralmente feito em sussurros?

por tempos empurro um pouco mais a faca
só pra saber até onde aguento a dor.
morri algumas vezes...
mas será verdade que nunca me viram por aí?






rigoberto lima

Quarta-feira, Março 18, 2009

aquela foto

Eles são separados... Há tempos. Existem filhos. Todos formados, alguns casados, outros procurando um caminho, mas todos seguindo. Eles foram casados por tempo suficiente para ter filhos de forma que datas comemorativas não faltem por duas ou três gerações. Sempre vai existir um natal, uma formatura, um aniversário, um casamento ou um batismo. Tanto laço mesmo depois de separados cria uma intimidade velada entre os casais, só eles vêem, só eles sentem, só eles sabem... os tons de voz, as piadas subcolocadas, os silêncios ( entender silêncios é dádiva dada a poucos casais).
Enfim. Cada qual vive sua vida, cuida de sua casa. Alguns filhos já abriram a porta da frente da casa e já foram seguir suas vontades e gostos, mas sempre sabendo que o calor da casa da mãe vai estar sempre no mesmo lugar e que retornos rápidos sempre são bem vindos. E o pai... O pai, enfim, é o pai. Sempre como todos, as palavras doces e carinhos não são o forte de homens, da maioria, eles servem para outra coisa. Como todo pai separado tem aquele ar de largado pelos filhos depois da separação. As mães sempre tem uma vantagem desleal em relação aos pais. Eles trazem a comida mas as panelas são delas.
Certo dia, ele, visitando a casa dela para resolver um problema sobre qualquer coisa relacionada a alguns dos filhos (mesmo crescidos sempre tem que resolver suas coisas...quase que com a fidelidade de uma cláusula de contrato). Entrando sem ser anunciado e simplesmente abrindo a porta.
- Mãe! Papai tá aqui! – grita a filha mais nova sentada no sofá da sala, essa que teve menos contato com a imagem dos dois juntos, por conta disso guarde mais coisas dentro de si sobre os dois do que a sua vontade permita. – Oi, pai!.
- Oi, filha!
Um grito abafado pela distância e pelas paredes e corredores parece dizer alguma coisa como se a mãe já viesse. Não são encontros tensos mas talvez careçam de sentimentos mais concretos e palavras mais diretas.
Ele mira sobre a mesa ao lado da porta um emaranhado de fotos da família. Formaturas, festas, sorrisos, abraços, beijos, casamentos e dentre esses casamentos, o dele. Uma imagem perdida a mais de trinta anos, meio desbotada na cabeça dele. Talvez. É o primeiro porta-retrato no meio de tantos. Ele se aproxima. Pega. Olha com uma atenção que causa uma pausa na filha caçula que percebe essa feição reta e grave do pai para a foto e vê que ele vai falar alguma coisa...a respiração se interrompe...o ar por si só parece ter se aprisionado nos pulmões... palavras de feição e importância ímpar serão ecoadas naquela sala...a caçula sabe e sente isso. O pai se vira pra ela e com uma certeza absurdamente calma:
- Esse nó de gravata está muito bem dado, minha filha! Sua mãe ta demorando muito... Diz que eu volto depois das seis ou só amanhã mesmo.
E sai apressado batendo a porta.



Rigoberto Lima

Terça-feira, Março 17, 2009

o passeio e as pessoas

como as pessoas faziam pra se encontrar a 15 anos atrás? celular não era popular...internet também não...orkut, obviamente, nem sonho era ainda...
saíamos...nos víamos...nos conhecíamos...nos gostávamos (mais)... não éramos tão sozinhos...não existia essa busca boba e desenfreada para provar que somos conhecidos, que pessoas gostam da gente, de provar que eu "sou legal...sou cool...pode se aproximar"...
não existia tanto cinismo nos cantos das casas...tanta vontade de nada...as pessoas eram mais quentes na altura do peito e dos quadris...a comida tinha outro gosto...até os beijos tinham. dava-se mais valor a se encontrar com um amigo...a facilidade das coisas banalizou a amizade, amizade se faz também na distância e na ausência, na vontade de ver o outro sem precisar apenas clicar ou ligar tão facilmente...não se dáva tanta bola pra solidão, a vontade de querer ver era maior.
cartier bresson, meu fotógrado preferido, disse que "quanto mais máquinas nas ruas menos fotógrafos existirão"...usando do mesmo sentido: quanto mais contatos nos celulares, nos orkuts, nos facebooks...menos amigos existirão.
aos vinte e sete anos, posso dizer que hoje, não mais como menino, garoto, jovem ou qualquer outro denominação parecida...pela primeira vez me digo e me chamo de homem...hoje sou um homem de hábitos antigos....gosto das pessoas...dos seus gostos, de suas palavras ao pé de ouvido, dos seus abraços...gosto das pessoas e não de suas baterias, senhas, logins e apelidos.
Nesse mundo onde todos correm...eu ainda gosto de caminhar.
rigoberto lima

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

meu trem não chegou na hora

ontem vi umas fotos de teus sorrisos
em algum verão passado.
pareceu mais você do que vejo hoje.

em qual amor passado você se perdeu
e decidiu ser assim?
em qual choro velado
que só você ouviu decidiu ser assim?

sei que de tudo que vivi, eu, que me chamo hoje,
lamento de não ter chegado ontem.





rigoberto lima

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

pieces

"o melhor de viajar é a volta p'ra casa"...
dizem?
nem fui.


Hoje me sinto mais eu
do que já fui um dia...
ainda sim, não me acho.


Não se pode contar segredos em minha casa
tem muitos ecos.
Não existe espaço entre as palavras.









três micro-poemas escritos na última quarta parte do último dia de 2008.


rigoberto lima

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Dezembro

É dezembro. Descobri vendo crianças nas ruas, crianças dessas de pouca idade que gostam de pedir dinheiro a pai e mãe e comprar picolé, bombom, refrigerante na esquina. Crianças com ar mais leve...de férias...invadindo as ruas e não apenas os famigerados shopings com seus papais noéis de coca cola.
É dezembro. Descobri quando me dei conta de que o coração apertou pedindo pra ficar perto de quem se gosta. Pedido leve, melancólico quase...dessas soliões que gente dita do século XXI é acostumada a ter, solidão de gente moderna, que entende tudo de tecnologias, expressões novas e que impressionam, mas entendem pouco de gente.
É dezembro. Descobri quando acordei hoje olhei pro céu e vi nuvens carregadas, pesadas... Pressentindo chuvas que se alargam até abril ainda longe.
É dezembro. Descobri pelo peso do ano sobre as costas e o próximo vindo querendo ajudar e tirar esse peso e tentar me deixar leve...leve.

Descobri quando vi a árvore de natal ser montada na sala.
E nem precisei de calendário.





rigoberto lima

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

Jardim das crônicas sem conteúdo

O relógio na mesa de cabeceira confessava preguiçoso que já passava, por pouco, das seis horas da manhã. A luz fraca que passava pela janela e a cortina, deixava dúvida, mas não desmentia. Era a primeira informação que ela recebia no dia. A segunda era de que ela sentia fome e precisava ir ao banheiro antes disso. Saindo do banheiro enxerga o corpo dele. Adormecido sobre a cama. Pensa nos pedidos feitos ao pé do ouvido e prontamente aceitados por ela. E o quanto ela gostava daquilo. Lia se sentia feliz. Leve. E era sábado. Logo ele acordaria e lhe daria um beijo, perguntaria sobre o café. Obedeceria o protocolo do cotidiano e sairia pro trabalho. Mas naquela hora, naquele instante, ele era só dos olhos dela. Já faziam cinco anos desde que se conheceram. E era ele. Sabia que era ele. Pelo jeito que ele sorria pra ela quando a comida que ela preparava não estava boa, pela feição de contentamento quando ele aceitava em ver o filme que ela queria no cinema, pelos bombons de chocolate amargo que ela recebia dele de vez em quando na volta do trabalho, pelo jeito que ele sempre deixava o controle da tv pra ela, pelo jeito engraçado do rosto dele quando goza, pelo jeito que ela se sente úmida pelos dedos dele...
Por tudo isso, por ser sábado e por ele ser só dela, nem ele mesmo se pertencia naqueles instantes antes do despertar.
- Acorda! - susurra ela baixo caindo por sobre ele e deixando os seios dela tocarem as costas dele - É dia lá fora e aqui dentro também.
Ele muito sonolento, acorda, se espreguiça espaçoso, olha pra ela, deixa o corpo se relaxar na cama.
- Bom dia, bem!Café tá pronto?
rigoberto lima

Terça-feira, Outubro 28, 2008

castanhada

Papai chegou hoje em casa com um pote na mão. Eu estava quase de saída pra uma aula chatíssima de introdução à comunicação. Curioso, fui ver. Castanha assada. Ainda na casca. "De onde é, pai?"."Dó sítio mesmo". Eram só castanhas, sim, mas quando peguei uma pra tirar a casca olhei ao meu redor e me vi com 10 anos, cercado de primos de mesma idade e correndo de um lado para o outro. Minha avó Helena estava lá também, 20 anos mais nova do que hoje, gritando pra gente não chegar perto da chapa e da fogueira. Cada primo e eu, inclusive, tínhamos um galho pequeno nas mãos. Lembrei onde estava. Nos quintais de nunca mais da infância, quando ainda existiam crianças de 10 anos. Fantásticos quintais aqueles. Uma árvore de fruta do conde sempre observando. O poleiro de pombos. Os coelhos e seus olhos vermelhos. E a castanha assando em uma fogueira sobre uma chapa de ferro. E a melhor hora, a que todos nós esperávamos por pura farra. Gercina virava a chapa e as castanhas em brasa defumada queimavam no chão e nós batendo compulsivamente pr'o fogo acalentar. Acabava. Correria de novo e esperar pra próxima assada de castanha. Na outra semana. Até que um dia esperamos e nunca mais tivemos castanha. Já não tinhamos mais nossos quintais. Magníficos quintais.
Voltei.
Peguei os livros e fui pra universidade.
Só precisou de uma castanha.








rigoberto lima

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Sempre teremos Paris.

"O nazista pergunta a Rick::
- Qual a sua nacionalidade?
- Sou um bêbado!
- (risos) Isso faz de vc um cidadão do mundo. Soube que veio de Paris.
- Isso não é segredo para ninguem eu creio.
- Você é um dos que não suportaria nos ver em sua Paris?
- Não é tão minha assim.
- E Londres?
- Quando chegar lá me avise.
- E Nova York?
- General, há lugares em NY que eu não aconselharia uma invasão."


. . .


"Rick aponta a arma para o chefe de polícia corrupto e diz:
- Você vai ligar para o aeroporto e arranjar dois salvo-condutos para Lisboa agora. E não esqueça que estou apontando essa arma para seu coração.
- Escolha errada. Esse é o meu ponto menos vulnerável, suponho - responde irônico o chefe de polícia."


. . .



Tipicamente americano? Sem dúvida. Bem escrito? Deveras. Moderno? Gritantemente. Lançamento Hollywoodiano blockbuster para o próximo verão? Não. Casablanca, 1942, Bogart e Bergman.








rigoberto lima

Terça-feira, Outubro 14, 2008

G.P.S.

internet banda larga de máxima velocidade. telefones que se confundem com máquinas fotográficas, tv's e video-games e sempre ao alcance da mão. tudo tem que ser plugado. baterias de recarregar e pilhas não podem faltar. skipes, msn's, bluetooths. orkuts contando os gostos e vontades. telefone descarregado sempre gerando uma certa angústia e em algumas pessoas quase o desespero do fútil. a demência da quantidade tomando espaço cada vez mais do dia. as pessoas querem ser achadas. só isso.
e às vezes lidas.





rigoberto lima

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

retalho

domingo passado por volta das 9 da noite, uma melancolia me visitou sem ter sido convidada e se depender de mim não vai ser convidada tão cedo. Saudade de tanta coisa. Assistir filme de mão dada, comer doce de leite, relacionamento estável, uns sentimentos de estabilidade feminina me tomaram por demais, e acima de tudo saudade de meu filhote. Saiu uma música, folk, quase country. Cara da Mallu Magalhães. Eu preferia dizer "cara do cash", mas não posso. Um negro escutador de samba fazendo country? afirmo-lhes que sim. Pra quem visita essas "páginas" vai com certeza saber de onde vem os versos dessa letra. Por isso ela se chama retalhos. Sou todo feito de saudade e retalhos.



retalhos

não sei andar
nesses espaços que você deixou
deixou sem me avisar

não sei qual gravata colocar
talvez a que não exista
portanto não me aperta e nem me tira o ar

dia desses saí pra passear
lembrei de nós brincando de ter vida
mas tudo fica bem
enquanto você for minha cor preferida

o que tenho pra te dizer
se diz baixinho
se ouve calado
com um sorriso desses
que saem assim meio de lado

não vejo motivos pra ficar
nesse inverno sem cobertor
por mais frio que faça
nem mais uma linha sobre dor


rigoberto lima

Terça-feira, Setembro 23, 2008

north pole

dias difíceis esses
não sei se choro ou sorrio
é pouca perna pra tanto vazio.






música pra hoje: drão - gilberto gil




rigoberto lima

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

quem dera!

não sei andar nesses espaços que você deixou.
adiando sempre os planos por conta dos fazeres
nesse andar apressado
esquece sempre que a vida acontece o tempo todo.

no que me cabe admito sempre
que tenho lacunas que você não sublinhou.
adormeço...acordo...transbordo e ainda sim
não sei andar nesses espaços que você deixou.



música pra hoje: die, die my darling - misfits




rigoberto lima

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

conta!

comecei contando um
passei pro dois
aí, você sumiu.
atordoado, desconfiei que o três vinha depois.






rigoberto lima

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

E.C.T.

tudo que sobrou
coube na caixa do correio
palavras bonitinhas de adeus
bilhete com começo e fim.
eu que entenda o meio.



rigoberto lima

Terça-feira, Setembro 02, 2008

caninos e felinos

Se eu parar pra lembrar, chutaria 6 meses. É o tempo que Gyselle se apossou dos cantos da casa. Gyselle, a gata. Gata de felina, viu. Foi salva do lixão da padaria aqui da esquina depois de ter sido caridosamente jogada lá por alguma alma sem matéria divina suficiente pra ter dó, pena ou compaixão, amém! Os miados duraram um dia, o suficiente pra ela ser a felizarda de ganhar casa, comida e sofá pra arranhar.
Sempre gostei de cachorros. Desde que me entendo por gente minha mãe sempre criou cachorro. Mas depois que a felina chegou. Um carinho estranho me tomou por ela. Nada de chamego, rabo balançando, orelha em pé pedindo carinho. Quando quer, ela vem. E basta. Ela teima em dormir no meu quarto de uns dias pra cá. Era pra ter terminado "a insustentável leveza do ser" já a alguns dias(vários, aliás),deito, leio algumas páginas mas gosto de olhar pra ela, ali: Auto-suficiente, deitada, sem pedir carinho à toa e aos ventos. É um animal de estimação com hábitos mais modernos, sofisticados. Ao menos, pra mim são, sempre acostumado a cachorro e às línguas de fora.
Alguma coisa mudou em mim. Esfriei o coração?Coração ,esse, sempre tão orgulhoso dos feitos e palavras bonitas que enalteceram tantas donzelas(e outras nem tanto) em tantos anos. Será que me deixei identificar pelos hábitos felinos? Cansei de ir atrás? Só aceito quem estiver ao alcançe da mão e isso se a vontade apetecer? Comerei 17 vezes por dia e só beberei água na tigela?
Gyselle vai me dizer qualquer hora dessas.




rigoberto lima